O que é ser um Sínico?

Nem sinófilo, nem sinófobo, mas um sínico – com “s”, que fique bem claro. Este sinismo a que me refiro é a busca de uma terceira via para sinologia, que não seja nem idólatra da China, ou que a odeie por puro preconceito. A China de agora está livre das tensões da Guerra Fria, mas inaugurou um novo problema para o mundo: como lidar com ela, este modelo milenar, cujas orientações ideológicas e culturais são tão distintas? Ao mesmo tempo, pode-se afirmar que os chineses são outro tipo de humanidade, para serem tão diferentes assim? Se forem, eis um motivo para estudá-los; mas se não forem, outra razão para estudá-los do mesmo jeito, buscando entender o que nos aproxima, ao invés do que nos diferencia.

Por isso esta atitude sínica, que se confunde - de propósito - com o cínico, o fingidor. O desejo de estudar a China, ao meu ver, não está na crença fanática dos exotéricos de encontrar no “oriente” a salvação de seus dilemas morais e espirituais - e se o farão, vão precisar estudar muito, de qualquer modo, para alcançá-la, pois a verdadeira espiritualidade dos chineses, indianos e asiáticos em geral está bem distante da superficialidade com que eles abordam o tema. Mas... quando criticados nesta postura, acusam o estudioso de ser “insensível”, ou mesmo, de ter uma “compreensão superficial” da “verdade” (!!!). Lembro-me até hoje quando, na classe de chinês que eu freqüentava, um “iniciado” corrigiu a todos dizendo que na China não existiam “cobras”, somente “serpentes”... Esta visão exclusivista e intolerante de mundo é ignorante, limitada e irritante. Neste momento, pois, prefiro fingir que sou um néscio no assunto – e deixo estas pessoas ao sabor de suas futuras decepções com a busca de um caminho que não existe.

Contudo, não posso concordar com a ideologia sinofóbica dos que temem a China porque aprenderam a temer, sempre, o desconhecido. A sinofobia é calcada nesta mistura de arrogância ocidental, que se entende ser o centro cultural de tudo, com as crises de identidade que ocasionalmente afetam as mesmas nações desta parte do mundo, quando elas se atolam em Coréias, Vietnãs e Iraques da vida. Quem tem medo da China? Aqueles que sabem que trazem consigo, todo dia, ao menos um produto fabricado lá; que não compreendem como estas pessoas atravessam o mundo, falam uma língua estranha e abrem rapidamente um negócio em outro país, demonstrando a incompetência – ou má vontade – dos nativos em mudar sua própria vida.

Estamos apenas falando do senso comum, que aprendeu a ver a China como a civilização da vilania, do massacre, da violência, da ditadura – mas lá se pode fumar na rua, e se a internet é bloqueada, bem... no país em que moro, não posso fumar em vários lugares, e a internet também é bloqueada. Na China que reprime as religiões, pode se ter a que quiser, contanto que se respeite a lei básica – mas no (meu) país da democracia religiosa, ainda vejo pessoas querendo espancar gente de outras religiões apenas porque não são cristãs. Alguém poderia ainda objetar, numa argumento mais do que batido: “ah é, você não gosta do Brasil? Então porque não se muda para lá?”, ao que eu respondo, de modo bem simples:

Se me indignam estas coisas, é porque adoro meu país, minha cultura e meu povo – esta é a típica ignorância que busco combater, e para isso busco em outros modelos o espelho do exemplo. Se importamos teorias de todos os países, porque não empregar uma que ainda não experimentamos – e que pelo visto dá certo, já que a China está aí e continua a existir... não podemos aprender com isso?

Agora caio no outro extremo da sinofobia, aquela que se diz academicamente esclarecida, mas que sabe muito pouco sobre o tema que repudia. Numa universidade que prega tanto a transversalidade, o interculturalismo, o conhecimento do outro, etc. a China é entendida como um objeto exótico e temerário. O estudo da sinologia não revela a incapacidade dos estudiosos nesta área – afinal, eu também conheço muito pouco de outras – mas revela a inflexibilidade, a intolerância, a recusa total de um objeto que escapa ao domínio (no sentido de posse mesmo) destes “estudiosos”. A abertura das ciências humanas tem sido, em geral, uma fraude, um recurso para fuga, um diatribe para não aceitação disso que é “estranho”. Em vários congressos dos quais participei, ouvi incessantemente a cantilena de que “nossa área não é valorizada”, partindo de especialistas de campos consagrados – e que, ao mesmo tempo, refutam a inserção de novas temáticas por achar que isso desvirtuaria a construção desta “área de saber”. Traduzindo: muitas vezes, especialistas de ciências humanas reclamam que seu saber não é reconhecido, mas recusam-se a reconhecer outros. Nesta caso,a sinologia é um convidado quase estranho nos eventos acadêmicos, e olhado como um exotismo.

Eis quando surge a segunda face do sínico: passe ele por exotérico, louco ou seja o que for, ele faz seu trabalho, dentro das possibilidades, e deixa que falem. Afinal, o exercício de esclarecer demora tempo, e pisa em calos alheios – mas isso sempre foi uma condição do saber.

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Podemos nos perguntar se o sínico não é, de alguma maneira, um sinófilo escondido, e eu concordo que possa sê-lo. Ele admira as idéias chinesas, estuda-as, e não raro se apaixona, mas não se deixa levar de modo inconsciente pelas miragens do seu objeto. Assumir uma posição é uma tarefa difícil, mas é necessário. Pode-se concordar com a China comunista, pode-se concordar com Taiwan, ou pode-se mesmo acreditar que tudo isso é passageiro, e que daqui há 50 anos ambas estarão de bem; mas não é possível defender a China sem ter em mente seus aspectos problemáticos, como não se pode criticá-la sem entender sua cultura antiqüíssima. Afinal, a mesma China que é super poluída, hoje, é também um modelo econômico e educacional; a sociedade chinesa é um desafio para nossas teorias sociológicas e históricas; sua filosofia é uma descoberta multifacetada...

Este é um cuidado fundamental que devemos ter com as leituras contextualizadas da civilização chinesa, que oscilam entre a recente fé num comunismo reformador ou, no modelo pseudo-tradicional da capitalista Taiwan; correndo por fora, existem ainda as questões religiosas, sociais, o potencial de transformação econômico que abala o mundo, e o força a estruturar uma nova ordem. Que nova sinologia poderia ser feita, pois, no meio destas tensões?

Creio eu, a sínica – aquela que tenta observar a China de dentro, em suas tradições, não esquecendo, porém, que objetivo final deste espelho distante é enxergar melhor a si mesmo. Pode-se dizer que isso é uma forma de cinismo – um fingimento, uma paixão superficial, e isso faz parte de ser classificado como tal, porém a idéia não é esta – mas ser considerado um exótico, ou um falso apaixonado, ou mesmo um defensor do estranho, é o ônus de um conhecimento mais completo e profundo sobre esta civilização, sem abrir mão de uma atitude reformadora da realidade. Exploradores sempre foram vistos como loucos, até trazerem riquezas; suas empresas foram olhadas como desperdícios, até que ajudaram a mudar o mundo – com a sinologia sínica se dá o mesmo. Ela é uma empresa que está em construção, sujeita a interesses partidários ou ideológicos, mas que pode ser realizada como uma ciência legítima, em busca de dados que possam ajudara transformar a vida dos indivíduos.

A China já está presente, queiramos ou não – depende somente de nós entendê-la de modo consciente, ou continuarmos a nos sujeitar no mundo como alienados. Sem receio, ou sem admiração infundada, mas apenas com um olhar sincero, podemos deixar de ser cínicos (e fingir que não está acontecendo nada) para sermos, finalmente, sínicos – ou melhor dizendo, sinólogos – de fato.

Ao fazer um comentário, se não concentramos nossa atenção, se não há claridade na cabeça, se procedemos partindo somente dos aspectos superficiais do que vimos ou ouvimos, dando-lhes total crédito, em lugar de submeter as coisas a uma análise profunda e a um exame do raciocínio, estamos simplesmente nos deixando levar pelas impressões, mas sem refletir. Quando comentamos simplesmente o que vimos ou ouvimos, nos deixamos levar pelo aparente e pelo falso, e dando crédito a eles, confundiremos o certo com o errôneo. Portanto, quem julga o certo e o errôneo deve apelar para uma reflexão interna, sem basear-se apenas no que viu ou ouviu a sua volta.

(Wang Chong, 27 – 97 d.C.).

Um comentário:

  1. Saudações!

    Gostaria de compartilhar que tenho a mesma percepção sobre o mundo acadêmico no que concerne ao estudo da sinologia. Passei e passo por situações muito paracidas.

    Parabenizo o autor pelo texto.

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